quinta-feira, 16 de maio de 2013

SÓCRATES, O PARTEIRO DE IDÉIAS


Túlio Bertagnolli¹
                       A filosofia do personagem principal das obras de Platão, Sócrates, é baseada em buscar o conhecimento (o saber pelo saber, não para tirar proveito dele, de alguma forma, mas apenas pela curiosidade de conhecer), a partir da premissa de que ele próprio era sábio. “Só sei que nada sei”. Sócrates acreditava que apenas os deuses tinham o saber absoluto e ele (como filósofo) sabia que deveria procurar a verdade do conhecer para ficar cada vez mais perto dos deuses, e que aqueles que acreditavam que sabiam a verdade de todas as coisas, eram tolos.
            O personagem debatia questões comuns, como justiça, bondade, beleza (entre outras) com qualquer pessoa que estivesse disposta a ouvi-lo e, junto dele, chegar ao saber verdadeiro, sejam essas pessoas escravos, mendigos, soldados, generais, artesãos ou mercadores, pois acreditava que cada um desses indivíduos tivesse uma opinião diferente.
            Os diálogos de Sócrates eram baseados na desconstrução de falsos argumentos apresentados pelas outras pessoas. Ele mostrava porque elas estavam erradas. Apesar disso, seus diálogos (de primeira fase, assim como alguns da terceira fase, ou fase tardia) eram aporéticos, ou seja, apesar de todas as discussões com os personagens secundários e de todas as desconstruções de opiniões, Sócrates nunca apresentava uma resposta para as indagações que ele mesmo fazia.
            Platão, no diálogo Teeteto, de 149 a até 151 d ², disserta sobre uma metáfora usada pelo personagem Sócrates quando conversava com o jovem Teeteto, tentando descobrir o que era conhecimento: Sócrates comenta que ele seria um parteiro de idéias e praticaria a mesma arte das parteiras. Para que fique claro, Sócrates discorre sobre qual o trabalho das parteiras, quais suas habilidades/capacidades, quais suas limitações e onde fracassam, comparando assim suas próprias ações aos conceitos das parteiras.
            Primeiro, o personagem apresenta a seguinte afirmação:
[...] Imagino que sabes que nenhuma delas [parteiras] atende outras mulheres enquanto é capaz de conceber e dar a luz. Somente as que se tornam demasiado velhas para gerar que o fazem. (p. 149 b)
            O personagem distingue, aqui, as mulheres das parteiras, mostrando que as parteiras apenas auxiliam no processo de dar a luz, mas as verdadeiras geradoras dos filhos são, somente, as mulheres.  Nesta metáfora, o autor compara a geração de uma idéia ou concepção, ou até mesmo o aprendizado de um conhecimento ao processo de gestação de um filho, onde é necessário um determinado período de amadurecimento e crescimento para que se chegue a um resultado final.
            Em um segundo momento, Sócrates discursa da seguinte maneira: “Não é, também, provável e, inclusive, necessário, que as parteiras saibam melhor do quaisquer outras pessoas quem está grávida e quem não está?” (p. 149 c) Entende-se através deste argumento que o personagem compara as parteiras aos filósofos, como se estes soubessem reconhecer o conhecimento nos outros, percebendo quem está pronto a construir uma idéia, ou quem está apto a deixá-la amadurecer em sua cabeça.
            Mais adiante, no texto, o autor, classificando as parteiras também como as mulheres mais sábias para unirem homens e mulheres em casamento, assim como íntegras e dignas, pois fazem essas junções do modo correto, sob a pena de serem chamadas de alcoviteiras, comenta: “[...] já que possuem extraordinário conhecimento sobre uniões entre homens e mulheres do ponto de vista da geração das melhores crianças possíveis.” Ao seguir esta idéia, nota-se que o autor faz menção à habilidade do filósofo de juntar pessoas (mentes) que ele acha que, juntas, sejam capazes de gerar idéias frutíferas, ou de construir uma idéia a partir de discussões conjuntas.
            Sócrates, em seu discurso, também aponta que o seu trabalho seria ainda mais importante do que o das parteiras, pois estas cuidam das dores do corpo (do parto) e ele cuidaria da dor da alma dos homens, em seus partos de idéias. Além disso, o que seria ainda mais importante é que ele, filósofo, tem o papel de verificar se estas idéias que estão sendo geradas são verdadeiras ou apenas “uma mera imagem, uma falsidade”. Em adição a isso, comenta-se que muitos chegaram a Sócrates como ignorantes, mas este os fez progredirem e os fez descobrirem em si “belas coisas a dar a luz” (p.150 d). Alguns destes que, com a ajuda de Sócrates, pariram boas idéias, tendem a achar que esta obra é somente de sua própria autoria, deixando o parteiro de idéias de lado, desprezando-o e “julgando-se a causa de seu sucesso”. Estes logo deixariam de perceber as verdades e atribuiriam uma maior importância a imagens e falsidades e voltariam a pedir ao filósofo, uma luz que os guiasse.
            Platão também descreve o personagem Sócrates como sendo estéril, e este, em seu discurso, diria:
Com efeito, partilho do seguinte com as parteiras: sou estéril em matéria de sabedoria. A censura que tem sido dirigida amiúde a mim, isto é, de que interrogo as outras pessoas, mas que eu mesmo não dou resposta alguma a nada porque não possuo nenhuma sabedoria em mim, é uma censura procedente. (p. 150 c)
            Ele justifica seu argumento dizendo que os deuses o teriam permitido atuar como parteiro, mas o privaram de “dar a luz” ao conhecimento, portanto ele apenas poderia mostrar o caminho certo (do desenvolvimento) a seus consulentes e que com sua arte, seria capaz de fazer as dores do parto cessar.
            O personagem Sócrates envolve Teeteto em seus argumentos, deixando-o consciente de que este se encontra em um estado propício a elaboração de idéias no qual a ajuda de Sócrates seria muito útil (comparando ao estado de gravidez). Usa então esses argumentos todos para convencer Teeteto, já em meados da desistência do diálogo com Sócrates³, de que juntos eles poderiam chegar à conclusão proposta por Sócrates: O que é conhecimento?
             Mesmo depois dos dois personagens discutirem muito sobre o assunto proposto, entre várias outras questões filosóficas, Teeteto admite à Sócrates que desta parceria foram gerados “vários rebentos” e que justificando sobre o que dissertavam, nenhum desses rebentos deveria ser considerado um conhecimento conclusivo, visto que eram indignos de serem vistos como absolutos4.


Notas de rodapé

Nota 1 – Artigo realizado pelo acadêmico Túlio de Almeida Bertagnolli, usado como requisito de avaliação da disciplina de Iniciação à Prática Científica, do curso de Filosofia, 2ª fase, da Universidade Federal da Fronteira Sul, ministrada pelo professor Dr. Márcio Soares.  Contato: tulio.bertagnolli@gmail.com.

Nota 2 – Paginação oficial. 

Nota 3 – Teeteto, antes mesmo de começar a discutir sobre a proposta de Sócrates, teria se desestimulado, sob a justificativa de ter pensado em outros momentos nas proposições do filósofo e de não ter chegado a nenhuma conclusão.

Nota 4 – Sócrates: “[...] Com isso, nossa maiêutica nos declara que todos os rebentos que nasceram não passam de ovos sem gema e indignos de serem criados [...]” (p. 210 b)

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